Doença de Alzheimer

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Epidemiologia

Um dos grandes desafios que a sociedade brasileira enfrenta é o expressivo aumento da população idosa, assim como em outros países. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (Estatísticas Sociais, 2018), a população brasileira manteve a tendência de envelhecimento dos últimos anos, superando a marca de cerca de 30 milhões no ano de 2017. Esta é uma conquista da humanidade, sem dúvidas. Por outro lado, este aumento na longevidade pode representar concomitantemente um aumento significativo da incidência de doenças crônicas e incapacitantes, que exigem cuidados constantes. Dentre elas, podemos citar as demências.

Embora o envelhecimento possa trazer alterações cognitivas, como a lentificação no processamento de informação, ele não deve ser encarado como sinônimo de demência. Desta forma, embora os idosos tendam a necessitar de mais tempo para processar determinada informação, essa lentificação não é progressiva e incapacitante. Porém, é necessário reconhecer que o risco de demência, sobre Doença de Alzheimer, pode aumentar em função da idade, principalmente a partir dos 60 anos (Machado, 2016).

 

Atualmente, estima-se haver mais de 50 milhões de pessoas com demência no mundo. Este número praticamente irá dobrar a cada 20 anos, chegando a 74,7 milhões em 2030 e a 152 milhões em 2050 segundo relatórios da Associação Internacional de Alzheimer (ADI, 2015; ADI, 2019). Segundo este relatório, estima-se que a cada 3,2 segundos, um novo caso de demência é detectado no mundo e a previsão é de que em 2050, haverá um novo caso a cada 1 segundo. Neste sentido, a Doença de Alzheimer é a causa mais frequente de demência (ADI, 2019).

Em termos numéricos, no Brasil, existe uma escassez sobre a precisão do número de pessoas com Doença de Alzheimer devido ao número de casos em que há dificuldades no diagnóstico. Estudos de âmbito nacional revelaram uma porcentagem de casos de demência no país variando de 5,1 a 17,5% em idosos com 60 anos ou mais (Boff; Sekyia; Bottino, 2011). Acredita-se que as demências acometam cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil, sendo que cerca de 40-60% delas são doença de Alzheimer (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 2019).

No Brasil, o estudo de Herrera (2002) e seus colaboradores, encontrou que 55,1% destas demências são decorrentes de DA e 14,1% são decorrentes de DA associada à doença cerebrovascular (DA + Demência Vascular).

Neste estudo os pesquisadores encontraram que a prevalência foi maior entre as mulheres e em pessoas analfabetas (12,1%) do que em indivíduos com escolaridade de 8 anos ou mais (2%). Observa-se que as taxas de prevalência de demência também variam conforme a região em que se vive, a idade e a condição sócio-econômica.

 

Um importante estudo realizado por dois brasileiros, Lopes e Bottino (2002), entre 1994 e 2000, demonstrou grande variação de prevalência de demência em diversas regiões do mundo: na África, uma prevalência de 2,2%; América do Norte, 6,4%; América do Sul, 7,1% ; Ásia, 5,5% e na Europa, 9%. Já quanto à prevalência de demência relacionada à idade, os pesquisadores encontraram que, indivíduos entre 65 e 69 anos tinham uma prevalência média de 1,17% e indivíduos acima de 95 anos, de 54,83%. Num outro estudo brasileiro, Nitrini e colaboradores em 2004, observaram que após os 65 anos, a taxa de demência dobrou a cada 5 anos, confirmando que a idade é o principal fator de risco para o desenvolvimento de Doença de Alzheimer e que o grupo de idosos com 80 anos ou mais é o que mais cresce.

O estudo de Nitrini (1993) encontrou uma prevalência de Doença de Alzheimer de 54% dos casos após 85 anos. Em alguns outros estudos há uma variação de até 70% do total de casos. Já para a Demência Vascular, segunda causa mais frequente de demência, a taxa foi de 20%.

No Brasil, o conhecido Estudo de Catanduva demonstrou que a mulher (59%) desenvolve mais demência do que o homem (41%). Ninguém sabe ao certo a razão, mas uma forte possibilidade é o fato de que a mulher vive mais que o homem, em média 7 anos e a idade é o principal fator de risco para o desenvolvimento de DA. Vale ressaltar que a Doença de Alzheimer é democrática. Ela surge em qualquer pessoa, de qualquer nível sócio-econômico-cultural.

Quanto à incidência de Doença de Alzheimer relacionada à idade, um estudo americano realizado por Snowdon (1997) também encontrou dados de que a taxa dobrou a cada 5 anos até os 90 anos, porém, este estudo percebeu que após os 93 anos, parecia haver uma relativa proteção, o que significa que após esta idade, os riscos parecem não crescer tanto.

 

 

Referências Bibliográficas:

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Alzheimer’s disease international. World Alzheimer Report 2015: The Global Impact of Dementia. Alzheimer’s Disease International, London, Copyright © Alzheimer’s Disease International, 2015

BOFF, M.S.; SEKYIA, F.S.; BOTTINO, C.M.C. Prevalence of dementia among Brazilian population: systematic review. São Paulo Medical Journal, v. 129, n.1, p. 46-50, 2011.

Estatísticas Sociais. Número de idosos cresce 18% em 5 anos e ultrapassa 30 milhões em 2017, 2018. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/20980-numero-de-idosos-cresce-18-em-5-anos-e-ultrapassa-30-milhoes-em-2017. Acesso em 20 de abril de 2020.

HERRERA, E.J.; CARAMELLI, P.; NITRINI, R. Estudo epidemiológico populacional de demência na cidade de Catanduva, Estado de São Paulo, Brasil. Ver. Psiquiatr.clín; 25(2):70-3,1998.

HERRERA, E.J.; CARAMELLI, P.; SILVEIRA, A.A.S.; NITRINI, R. Epidemiologic survey of dementia in a community-dwelling Brazilian population. Alzheimer Dis Assoc Disord, v.16, n.2, p. 103-8, 2002.

LOPES, M.A.; BOTTINO, C. Prevalência de demência em diversas regiões do mundo: Análise dos estudos epidemiológicos de 1994 a 2000. Arq. Neuro-Psiquiatr, v.60, n.1, p.61-9, 2002.

MACHADO, J. C. Doença de Alzheimer. In: Freitas, Elizabete Viana; PY, Ligia; Gorzoni, Milton Luiz; Doll, Johannes; Cançado, Flávio Xavier. (Org.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 4ed.Rio de Janeiro - RJ: Guanabara Koogan, 2016, v. 1, p. 240-268.

NITRINI, R. Diagnóstico de demência: avaliação clínica, neuropsicológica e através da tomografia computadorizada por emissão de fóton único. Tese (livre-docência). Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1993.

NITRINI, R.; CARAMELLI, P.; HERRERA, E. Jr., BAHIA, V.S.; CAIXETA, L.F.; RADANOVIC, M., et al. Incidence of dementia in a community-dwelling brazilian population. Alzheimer Dis Assoc Disord, v. 18, n 4, p. 241-6, 2004.

SNOWDON, D.; GREINER, L.H.; MORTIMER, J.A.; RILEY, K.P.; GREINER, P.A.; MARKESBERY, W.R. Brain infarction and the clinical expression of Alzheimer disease -The Nun Study. JAMA, v. 277(10), p. 813-817, 1997.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE GERIATRIA E GERONTOLOGIA. Em dia mundial do Alzheimer, dados ainda são subestimados, apesar de avanços no diagnóstico e tratamento da doença, 2019. Disponível em: < https://sbgg.org.br/em-dia-mundial-do-alzheimer-dados-ainda-sao-subestimados-apesar-de-avancos-no-diagnostico-e-tratamento-da-doenca/>. Acesso em 23 de abril de 2020.